Membros
amputados e gangrenados, ossos expostos e doenças contagiosas. Doentes, sem
qualquer tipo de assistência médica, dividindo o espaço com outros ainda
saudáveis. Celas minúsculas, algumas superlotadas, imundas, repletas de fezes,
com água fétida e sem qualquer possibilidade de consumo, e além de tudo, sem
que qualquer raio de sol atinja seu ocupantes. Presas e predadores ocupando
espaços lado a lado, o que, não bastasse todo o resto, ainda vem a causar o
horror das presas e estresse dos predadores.
Esse quadro
dantesco e praticamente inimaginável pode parecer uma retratação de tempos
remotos, de alguma prisão afastada, localizada em algum local ermo e longínquo
do mundo, mas não, tal cenário existe e, infelizmente, é exatamente como o que
foi acima retratado e foi por mim visto hoje, provavelmente a alguns poucos
quilômetros do conforto do seu lar. E os que lá estavam aprisionados, não eram criminosos
culpados pelos mais bárbaros crimes hediondos que se possa imaginar. Muito pelo
contrário, são todos, absolutamente todos, completamente puros e inocentes e
nem de longe mereciam tal tratamento. A bem da verdade, nem mesmo o condenados
por crimes hediondos o mereciam.
Essa
verdadeira barbárie acontecia a céu aberto, em um endereço fixo, localizado em
uma avenida movimentada, aberto ao público e freqüentado por pais e filhos,
escolas, professores e crianças, que por mais incrível e chocante que possa
parecer, ainda pagavam ingresso para assistir o infortúnio dessas vítimas
inocentes.
O palco deste
cenário é o ZooNit, pequeno zoológico localizado na cidade de Niterói/RJ, onde
essa situação de patentes maus-tratos diários, que vinha ocorrendo há anos,
terá, muito em breve, infelizmente mais tarde do que devia, seu devido
fechamento. Mas, e isso também choca, todo o processo de fechamento não foi
fácil, pois diversas pessoas e seus representantes legítimos, muitos deles do
próprio poder legislativo, ainda defendiam, e ainda defendem, seu funcionamento
e a manutenção dos animais que ali eram cativos, nas condições acima retratadas.
Somente após
a intervenção direta do poder público, em especial do IBAMA, com auxilio
inestimável de diversos outros parceiros, tanto representantes do governo (PFE,
MPF, PF, BPFMA e Justiça Federal, dentre outros), como da própria sociedade civil,
através de universidades, fundações e ONGs, na ação de hoje, em especial o Projeto
GAP (Grupo de Apoio ao Primatas), responsável por prover uma vida digna aos
animais que hoje foram resgatados de lá.
Hoje foram
salvos um chipanzé, um leão, um grupo de macacos‑pregos, além diversos répteis
e aves que foram encaminhadas ao Centro de Triagem e Reabilitação (CETAS) do
IBAMA. Um leão e outros animais ainda ficarão neste local por mais um período,
mas não serão abandonados por lá, também serão resgatados, no período mais
breve possível, para poderem ter, daqui para frente, senão uma vida livre na
natureza, local de onde jamais deveriam ter sido retirados, pelo menos, uma
vida digna em cativeiro.
Logo na
entrada do ZooNit existiam alguns cartazes de apoio à permanência dos animais
no local, sendo que um dos que mais me chamou a atenção foi o que dizia “Essa é a nossa única área de lazer”.
Ora, que sociedade é essa que nós estamos criando e deixando para as futuras
gerações, onde um local onde animais selvagens são mantidos em jaulas de
concreto com grades metálicas, em espaços ínfimos para as suas necessidades
naturais, sob a alegação de se tratar de uma atividade de lazer? E como assim
não temos opções de lazer? Niterói é uma cidade linda, com diversas praias
paradisíacas, diversos monumentos abertos ao público, alem de teatros, cinemas
e shoppings, e de unidades de
conservação com grande beleza natural e onde diversos animais podem ser
observados em vida livre, isso só para citar apenas algumas das muitas opções
de lazer que a cidade de Niterói oferece.
Se fossemos
realmente uma sociedade evoluída, os muros do ZooNit, assim como nos locais
onde grandes tragédias acontecem, deveriam estar cobertos de flores e de bilhetes
com pedidos de desculpas aos animais que ali passaram pelos mais diversos
infortúnios durante anos, escritos por todos os que freqüentavam o local e por
todos os outros que permitiram, com sua ignorância e silêncio, que essas
barbáries ocorressem durante anos, grupo no qual, infeliz e desonrosamente, me
incluo.
O ZooNit
recebeu diversas multas por infringir a Lei de Crimes Ambientais, inclusive por
maus-tratos e o processo criminal será instaurado. Contudo, por mais que as
multas sejam altas, as penas, tanto administrativas como criminais, no meu modo
de ver, não são suficientemente duras para a responsabilização dos algozes do que
acontecia nesse estabelecimento.
Após toda
essa operação, retorno para o meu lar, com um sentimento misto de orgulho e vergonha.
Orgulho por ter participado e auxiliado, mesmo de forma tênue, na retirada dos animais
deste local, para que os mesmos fossem transferidos para outros locais onde
possam vir a ter, mesmo que tardiamente, uma vida digna, em local adequado, com
os devidos cuidados médico‑veterinários, alimentação saudável e água potável
disponível, desfrutando do convívio saudável com outros membros da sua espécie
e, pode parecer pouco, tendo um contato mínimo com a natureza (terra, grama,
arvores), ao invés apenas do concreto e do aço frio das grades, além poder
sentir o doce tocar dos raios de sol em sua pele.
Vergonha, por
ser membro de uma espécie que é capaz de causar tamanho sofrimento diário ao
longo de anos a animais inocentes, por puro prazer. Embora tenha a certeza do
dever cumprido, suspeito que não consiga dormir essa noite, ainda assombrado
pelas imagens que por mim foram vislumbradas hoje.
Mahatma
Gandhi, disse, a dezenas de anos atrás, que “a grandeza de uma nação pode ser avaliada pela forma como tratamos os
animais”. Se isso for verdade, hoje tive a impressão que não passamos de um
bando de bárbaros sádicos e que talvez não tenhamos sequer o direito de habitar
esse planeta e dividi-lo com as outras diversas formas de vida livre que aqui
deveriam conviver em paz.
Espero estar
errado. A noite vai ser longa, mas amanhã estarei de pé para mais uma batalha,
mas já apresentando sinais de cansaço, desta luta cotidiana e inglória contra a
estupidez humana.
(escrito em 13jul2011, também disponível em
http://projetogap.org.br/pt-BR/noticias/Show/3797,zoonit-inocentes-barbaramente-castigados)
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