sábado, 29 de setembro de 2012

Inocentes barbaramente castigados

Membros amputados e gangrenados, ossos expostos e doenças contagiosas. Doentes, sem qualquer tipo de assistência médica, dividindo o espaço com outros ainda saudáveis. Celas minúsculas, algumas superlotadas, imundas, repletas de fezes, com água fétida e sem qualquer possibilidade de consumo, e além de tudo, sem que qualquer raio de sol atinja seu ocupantes. Presas e predadores ocupando espaços lado a lado, o que, não bastasse todo o resto, ainda vem a causar o horror das presas e estresse dos predadores.
Esse quadro dantesco e praticamente inimaginável pode parecer uma retratação de tempos remotos, de alguma prisão afastada, localizada em algum local ermo e longínquo do mundo, mas não, tal cenário existe e, infelizmente, é exatamente como o que foi acima retratado e foi por mim visto hoje, provavelmente a alguns poucos quilômetros do conforto do seu lar. E os que lá estavam aprisionados, não eram criminosos culpados pelos mais bárbaros crimes hediondos que se possa imaginar. Muito pelo contrário, são todos, absolutamente todos, completamente puros e inocentes e nem de longe mereciam tal tratamento. A bem da verdade, nem mesmo o condenados por crimes hediondos o mereciam.
Essa verdadeira barbárie acontecia a céu aberto, em um endereço fixo, localizado em uma avenida movimentada, aberto ao público e freqüentado por pais e filhos, escolas, professores e crianças, que por mais incrível e chocante que possa parecer, ainda pagavam ingresso para assistir o infortúnio dessas vítimas inocentes.
O palco deste cenário é o ZooNit, pequeno zoológico localizado na cidade de Niterói/RJ, onde essa situação de patentes maus-tratos diários, que vinha ocorrendo há anos, terá, muito em breve, infelizmente mais tarde do que devia, seu devido fechamento. Mas, e isso também choca, todo o processo de fechamento não foi fácil, pois diversas pessoas e seus representantes legítimos, muitos deles do próprio poder legislativo, ainda defendiam, e ainda defendem, seu funcionamento e a manutenção dos animais que ali eram cativos, nas condições acima retratadas.
Somente após a intervenção direta do poder público, em especial do IBAMA, com auxilio inestimável de diversos outros parceiros, tanto representantes do governo (PFE, MPF, PF, BPFMA e Justiça Federal, dentre outros), como da própria sociedade civil, através de universidades, fundações e ONGs, na ação de hoje, em especial o Projeto GAP (Grupo de Apoio ao Primatas), responsável por prover uma vida digna aos animais que hoje foram resgatados de lá.
Hoje foram salvos um chipanzé, um leão, um grupo de macacos‑pregos, além diversos répteis e aves que foram encaminhadas ao Centro de Triagem e Reabilitação (CETAS) do IBAMA. Um leão e outros animais ainda ficarão neste local por mais um período, mas não serão abandonados por lá, também serão resgatados, no período mais breve possível, para poderem ter, daqui para frente, senão uma vida livre na natureza, local de onde jamais deveriam ter sido retirados, pelo menos, uma vida digna em cativeiro.
Logo na entrada do ZooNit existiam alguns cartazes de apoio à permanência dos animais no local, sendo que um dos que mais me chamou a atenção foi o que dizia “Essa é a nossa única área de lazer”. Ora, que sociedade é essa que nós estamos criando e deixando para as futuras gerações, onde um local onde animais selvagens são mantidos em jaulas de concreto com grades metálicas, em espaços ínfimos para as suas necessidades naturais, sob a alegação de se tratar de uma atividade de lazer? E como assim não temos opções de lazer? Niterói é uma cidade linda, com diversas praias paradisíacas, diversos monumentos abertos ao público, alem de teatros, cinemas e shoppings, e de unidades de conservação com grande beleza natural e onde diversos animais podem ser observados em vida livre, isso só para citar apenas algumas das muitas opções de lazer que a cidade de Niterói oferece.
Se fossemos realmente uma sociedade evoluída, os muros do ZooNit, assim como nos locais onde grandes tragédias acontecem, deveriam estar cobertos de flores e de bilhetes com pedidos de desculpas aos animais que ali passaram pelos mais diversos infortúnios durante anos, escritos por todos os que freqüentavam o local e por todos os outros que permitiram, com sua ignorância e silêncio, que essas barbáries ocorressem durante anos, grupo no qual, infeliz e desonrosamente, me incluo.
O ZooNit recebeu diversas multas por infringir a Lei de Crimes Ambientais, inclusive por maus-tratos e o processo criminal será instaurado. Contudo, por mais que as multas sejam altas, as penas, tanto administrativas como criminais, no meu modo de ver, não são suficientemente duras para a responsabilização dos algozes do que acontecia nesse estabelecimento.
Após toda essa operação, retorno para o meu lar, com um sentimento misto de orgulho e vergonha. Orgulho por ter participado e auxiliado, mesmo de forma tênue, na retirada dos animais deste local, para que os mesmos fossem transferidos para outros locais onde possam vir a ter, mesmo que tardiamente, uma vida digna, em local adequado, com os devidos cuidados médico‑veterinários, alimentação saudável e água potável disponível, desfrutando do convívio saudável com outros membros da sua espécie e, pode parecer pouco, tendo um contato mínimo com a natureza (terra, grama, arvores), ao invés apenas do concreto e do aço frio das grades, além poder sentir o doce tocar dos raios de sol em sua pele.
Vergonha, por ser membro de uma espécie que é capaz de causar tamanho sofrimento diário ao longo de anos a animais inocentes, por puro prazer. Embora tenha a certeza do dever cumprido, suspeito que não consiga dormir essa noite, ainda assombrado pelas imagens que por mim foram vislumbradas hoje.
Mahatma Gandhi, disse, a dezenas de anos atrás, que “a grandeza de uma nação pode ser avaliada pela forma como tratamos os animais”. Se isso for verdade, hoje tive a impressão que não passamos de um bando de bárbaros sádicos e que talvez não tenhamos sequer o direito de habitar esse planeta e dividi-lo com as outras diversas formas de vida livre que aqui deveriam conviver em paz.
Espero estar errado. A noite vai ser longa, mas amanhã estarei de pé para mais uma batalha, mas já apresentando sinais de cansaço, desta luta cotidiana e inglória contra a estupidez humana.

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