Há poucos
dias, um vídeo feito pelo vizinho, no qual uma mulher e seu filho pequeno espancam
impiedosamente, mesmo com o choro incessante, um minúsculo filhote de poodle, chocou o País. O filhote foi
resgatado por outro vizinho e passa bem. A agressora foi conduzida à Delegacia
e posteriormente liberada. Deve ser multada em não mais do que R$3.000 por
maus-tratos e talvez sofra alguma punição por infringir o Estatuto da Criança e
do Adolescente, ao estimular seu filho absolutamente incapaz ao cometimento de
tal crime. Nas redes sociais, diversas pessoas indignadas, clamavam para que a
agressora fosse punida com a pena capital, que sequer existe no Brasil.
Mas porque
esse crime chocou tanto, a ponto de diversas pessoas pedirem a pena de morte
para a agressora? Especismo, essa é a resposta!!! Centenas de milhares de
animais sofrem muito, absolutamente muito mais do que isso todos os dias. E o
pior, pagamos pra que isso aconteça.
Ai você dirá
que as agressões ao pequeno poodle
chocam por terem sido feitas contra um animal inocente, sem qualquer
possibilidade de defesa e por um motivo banal, se é que ele existe e depois dá
mais uma garfada no seu filé de vitelo, em um delicioso hambúrguer com bacon ou
mesmo numa inocente omelete de queijo. Especismo!!! Todos esses animais que
estão lhe servindo de alimento, ou melhor, lhe servindo à gula, pois os mesmos sequer
são necessários à alimentação, também foram espancados, de forma muito mais bárbara,
tiveram vidas inteiras de sofrimento e foram mortos de forma dolorosa, por um
motivo extremamente banal, simplesmente para satisfazer nosso paladar por um
preço acessível. E continuamos, diariamente, a pagar por isso e a querer preços
mais baixos, mesmo sabendo que isso implicará em mais sofrimento animal.
Ai você dirá
que todos esses "alimentos" são deliciosos e que você não consegue
resistir. Será que nosso paladar se sobrepõe à nossa capacidade de raciocínio lógico
ou ainda, se sobrepõe aos nossos valores morais e éticos?
Ai você
argumentará que os cachorros são animais inteligentes. A maioria dos estudos
demonstra que os porcos são pelo menos três vezes mais inteligentes que os
cachorros. Mas a questão central não é essa, ou será que a animais, ou a
pessoas "mais burras", se pode infligir dor? O filosofo inglês Jeremy
Bentham responde a questão: “Poderá
existir um dia em que o resto da criação animal adquirirá aqueles direitos
que nunca lhe poderiam ter sido retirados senão pela mão da tirania. ... A questão
não é: Podem eles raciocinar? Nem: Podem eles falar? Mas: Podem eles sofrer?”.
E quanto a isso, nos dias de hoje, não existe mais qualquer duvida, como claramente
afirmam diversos neurocientistas no “Manifesto
de Cambridge” (veja mais no texto anterior “Sobre animais, vegetais e terráqueos”). Ou seja, hoje temos certeza
científica inequívoca de que todos os mamíferos, aves e mesmo alguns
invertebrados, tem total consciência do mundo ao seu redor e, em diferentes
graus, sentem dor e prazer, e, portanto, tem interesses legítimos em não serem agredidos
ou torturados.
Sempre que inventamos
desculpas para justificar que a dor de um animal é mais importante que a de
outro animal, gostemos ou não, estamos agindo como especistas, agindo da mesma
forma que os antigos, e hoje desprezados, senhores de escravos que, ao inventarem
que os negros eram mais resistentes a dor, justificavam os castigados mais bárbaros
que a eles eram infligidos. O mesmo se aplica ao sexismo, ao nazismo, à homofobia
e por ai vai. Está ausente a “igual consideração
de interesses”.
E não pensem
que estou aqui tentando minimizar o ato da agressora do poodle. Muito pelo contrario, pretendo aumentá-lo. No meu íntimo, também
desejo uma pena estupidamente mais alta do que a que será aplicada pela Justiça
e estaria eu mesmo disposto a aplicá-la, contudo, por entender que outros valores
se sobrepõem à minha vontade de vingança, defendo que a agressora seja punida na
exata proporção estipulada pela Lei. Se após isso nossa sociedade entender que
tal pena é exígua e ineficiente para conter tal comportamento (eu realmente
acho isso), que a mesma seja devidamente aumentada pelo sistema legislativo
vigente e passe a vigorar a partir de então. Infelizmente assim a agressora do poodle sairia praticamente ilesa de sua
conduta criminosa, mas do ponto de vista da vida em sociedade, teríamos avançado.
"Não há crime sem lei anterior que o
defina".
Alguns dias
antes ao espancamento do poodle,
outra notícia chocou o mundo. Em Cleveland, EUA, três mulheres, após passarem
mais de dez anos presas e mantidas como escravas sexuais de seu seqüestrador foram
libertadas do cativeiro, por acaso e com a ajuda de um vizinho, que sequer
desconfiava que tal crime ocorresse na casa ao lado. As três eram mantidas
acorrentadas em jaulas, uma delas foi obrigada, através de espancamentos e privação
de comida, a fazer pelo menos cinco abortos, enquanto outra, mesmo no
cativeiro, deu a luz a um bebê, que no momento do resgate já estava com seis
anos.
Obviamente o
crime de Cleveland é muito mais chocante e absurdo e uma pena muito mais dura
deve ser aplicada e o seqüestrador e assassino talvez seja, realmente,
condenado à pena de morte, como devidamente previsto na legislação de lá.
Contudo,
diariamente, já no café da manhã, ao bebermos leite e comermos ovos ou queijos,
cometemos, ou no mínimo estimulamos, os mesmos crimes, contra espécies
diferentes. As vacas leiteiras são mantidas presas e prenhes por toda a sua
vida, simplesmente para produção de leite (somos os únicos mamíferos de todo o
reino animal que continua bebendo leite depois do desmame), quando seu filhote
nasce, o mesmo é imediatamente separado de sua mãe e mantido acorrentado em uma
baia minúscula, que o impede de dar um passo sequer, por quatro meses, sem
beber água e sendo obrigado a se alimentar apenas de ração liquida com pouco
ferro, para que fique anêmico, com a carne clara e macia (o famigerado vitelo
ou “baby beef”), enquanto isso, sua
mãe tem o leite tirado em quantidades muito maiores que a natural, tanto que em
menos de quatro anos (uma vaca pode viver mais de 25 anos em condições normais)
a mesma não produz mais leite o suficiente e será enviada para o abate. As
galinhas poedeiras passam à vida inteira aprisionadas em gaiolas minúsculas com
diversas outras galinhas, sem que jamais vejam a luz do sol, tem seus bicos cortados
e são estimuladas a colocarem ovos em quantidades muito maiores que a natural e,
passado pouco tempo, como não conseguem mais manter a produção de ovos, também
são enviadas para o abate, às vezes para virar ração e alimentar outras
galinhas poedeiras.
Dai você dirá
que não se pode comparar o sofrimento de bichos com o sofrimento humano! Porque
não? A resposta é a mesma de antes, especismo!!! Obviamente um crime contra
membros de nossa espécie ira nos chocar muito mais, contudo não podemos achar
que as mesmas atitudes são aceitáveis se foram infligidas a seres sencientes de
outras espécies. Mas uma vez, nos falta a “igual
consideração de interesses”.
A humanidade
já fez isso diversas vezes. E ainda fazemos, sempre com resultados que as
gerações futuras acharão absurdos, bárbaros e impensáveis.
Na Idade
Média, mulheres eram torturadas e queimadas vivas em praça pública. Mas eram só
mulheres, seres inferiores aos homens. No século XIX, negros eram transformados
em escravos, mantidos acorrentados e chicoteados em praça publica. Mas não eram
humanos, eram apenas negros. Há poucos mais de 60 anos, judeus eram enviados
para morte em campos de concentração e queimados vivos, as milhares, em fornos
industriais. Mas não eram humanos, eram apenas judeus. Há uns 15 anos, jovens
de classe média alta, por diversão, queimaram um índio vivo, no meio da rua da
capital do País. Mas não era humano, era apenas um índio. Ainda hoje,
homossexuais são atacados e espancados na rua. Mas não são humanos, são apenas
homossexuais (o termo realmente usado é bem mais chulo).
Os filósofos
da antiguidade que defendiam os animais, não o faziam por acreditar que eles
tivessem direitos ou mesmo que sentissem dor (muitos acreditavam que os animais
nada mais eram do que máquinas que imitavam perfeitamente o comportamento humano),
mas porque a crueldade contra os animais, em ultima analise, levava à crueldade
contra os humanos. Mesmo com essa visão totalmente antropocentrista, talvez
eles estivessem certos nesse ponto. Sempre que queremos enfatizar uma conduta
cruel dizemos "foi espancado como um animal", "tratado como um cachorro",
"morto como um porco".
Durante o
Renascimento, numa época onde, em plena Europa, pessoas eram torturadas e executadas
na rua, à luz do dia, o pintor Leonardo Da Vinci, que era vegetariano e é
considerado pelos estudiosos do período como um dos maiores gênios que já
existiu disse: "Chegará um dia no
qual os homens conhecerão o íntimo dos animais; e nesse dia, um crime contra um
animal será considerado crime contra a humanidade.". Passados mais de
cinco séculos, embora no Brasil e em diversos outros paises do mundo, mesmo que
com penas brandas, praticar atos de maus-tratos a animais já seja considerado
crime, nunca antes em toda a história da humanidade tantos animais foram
torturados e mortos, simplesmente para virarem hambúrgueres, galetos, patês, bacon
ou mesmo ração para outros animais.
Já fomos
sexistas, estamos deixando de ser. Já fomos racistas, estamos deixando de ser.
Já fomos nazistas, estamos deixando de ser. Ainda hoje somos homofóbicos, mas
estamos deixando se ser. Talvez tenha chegado o tempo para deixarmos de ser também
especistas e assim banir de vez a crueldade da face da Terra. Talvez assim possamos
avançar, não como seres humanos, mas como seres vivos, como Terráqueos, que é o
que todos somos. Talvez assim a "igual
consideração de interesses" venha a ser uma realidade para todos os
seres sencientes.
Já na década
de 1970, o filosofo Peter Singer, autor do livro “Libertação Animal”, obra que abriu meus olhos, me fez adotar o
vegetarianismo, me transformou num defensor não especista dos animais e cunhou
as expressões "especismo" e
"igual consideração de interesses"
sugeriu que: "A libertação animal é
a libertação humana".
Talvez os
filósofos estejam certos. Não custa nada tentar.
“Somos todos Terráqueos. Faça a conexão!!!”
“Por um mundo vegetariano. Pelos animais.
Pelas pessoas. Pelo Planeta” (Sociedade Vegetariana Brasileira)
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