terça-feira, 2 de abril de 2013

Sobre animais, vegetais e terráqueos


Imagine um cachorro, ou mesmo um gato, criado a vida inteira dentro de uma gaiola. Agora imagine que a mesma é quase do tamanho do seu corpo e praticamente o impede de se mexer, de se lamber ou mesmo de se deitar. Para piorar a situação, sua cabeça esta amarrada com uma corrente e o chão é de grades de metal. Não pretendo aqui ficar descrevendo os horrores que podem ser infligidos aos animais, mas se você comeu carne hoje, de qualquer animal, de qualquer espécie, seja boi, frango, porco ou qualquer outro criado em cativeiro para nos servir de alimento, muito provavelmente o animal que você comeu passou por todas essas agruras e muitas outras. E o pior de tudo é que você, assim como eu, já sabe disso. Sabemos, mas sempre nos utilizamos da camuflagem moral de que os seres humanos são onívoros por essência e que, portanto, o habito de comer animais é natural e deve ser exercido. Assim como um leão se alimenta de uma zebra, um humano se alimenta de um boi, de uma galinha ou de um porco.
Também não pretendo aqui confrontar essa ótica natural óbvia, porem, não somos tão carnívoros assim, afinal de contas, salvo raríssimas exceções, você não matou o animal que você comeu hoje, assim como faz um leão com a zebra. Muito menos se alimenta da carne de qualquer animal disponível, assim como um leão. Se não fosse possível o acesso à carne dos animais citados acima, não comeríamos cachorros e gatos. Deste modo, o hábito de matar animais para se alimentar de sua carne, não é tão natural assim, tanto que a maioria absoluta das pessoas não o faz e se fosse necessário que o fizesse, a maioria absoluta das pessoas não comeria carne. Pelo menos não na quantidade que comemos hoje.
Não se trata aqui de negar nossa natureza carnívora, ou mesmo de questionar moralmente o ato de matar para se alimentar, mas o fato é que a imagem bucólica idealizada da criação de animais em fazendas, com vaquinhas pastando ao lado de seus bezerros, galinhas ciscando na terra ao nascer do sol ou porcos chafurdando na lama, praticamente não existe mais e hoje, prática e absolutamente todos os animais criados de forma industrial para o abate são diariamente mal-tratados, torturados, seifados de suas necessidades básicas mais elementares, como se locomover livremente, deitar para dormir ou comer alimentos adequados à sua espécie e ainda são extremamente humilhados, mesmo no momento de suas mortes, que sempre ocorrem das formas mais absurdas e indignas para qualquer ser vivo. Tudo atrás de altos muros, o mais escondido possível de nossos sensíveis olhos e, de outra forma não poderia ser, pois “se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos” (Paul McCartney)
E não há mais que se acreditar na falácia de que se tais animais sofressem, o negócio não seria proveitoso e não geraria lucro. Muito pelo contrário, essas espécies - bois, galinhas, porcos e outros - foram escolhidas pelo homem e posteriormente utilizados pelas grandes empresas de agronegócios, exatamente pela sua passividade e capacidade de engordarem mesmo quando confinadas em espaços exíguos, com alimentação anti-natural e passando pelas mais cruéis torturas cotidianas. Como já disse o escritor Isaac Bashevis Singer, ganhador do prêmio Nobel de literatura em 1978: “Em seu comportamento com os animais, todos os homens são nazitas


Contudo, qual no filme “Matrix”, eventualmente e sem que você seja avisado ou esteja preparado, chega uma hora na vida em que somos confrontados com a dicotomia entre tomar a pílula azul, onde nada se altera e a vida segue seu rumo normal ou tomar a pílula vermelha, onde a verdade lhe será revelada de modo avassalador. Quase sempre, por inércia social, optamos pela primeira opção, mas eventualmente chega o momento de tomar a pílula vermelha, sendo a verdade revelada de modo avassalador e deveras doloroso. Um tapa na cara tão forte, que, de uma só vez, arremessou ao chão todas as minhas crenças adquiridas em mais de quatro décadas de vida. Virei vegetariano imediatamente. De uma só vez, sem qualquer possibilidade de retorno ao meu mundo anterior.
Não há mais como ser mero observador deste cenário, agindo como cúmplice de tal atrocidade, de modo que continuar a me alimentar da carne torturada destes animais, seria o mesmo que apoiar a escravidão, o anti‑semitismo ou as torturas da Inquisição.
Oportunamente, cito o filósofo Peter Singer, em “Libertação Animal”, livro de 1975, que só por acaso tive acesso, com o infeliz atraso de décadas, e que é o principal responsável por esta tardia mudança radical de hábitos: “É nesse ponto que as conseqüências do especismo entram diretamente na nossa vida, e somos forçados a dar uma prova pessoal da sinceridade de nossa preocupação com os animais não‑humanos. Aqui temos uma oportunidade de agir em vez de apenas falar e desejar que os políticos façam alguma coisa. É fácil nos posicionar sobre um assunto remoto, mas os especistas, como os racistas, revelam sua verdadeira natureza quando o assunto se torna mais próximo de casa. Protestar contra as touradas na Espanha, contra o uso de cachorros como alimento na Coréia do Sul ou contra o assassinato de focas no Canadá e continuar comendo ovos de galinhas que passaram a vida espremidas em gaiolas, ou a carne de vitelos privados da mãe, da sua alimentação natural e da liberdade de esticar as pernas, é como denunciar o apartheid na África do Sul e pedir ao vizinho que não venda a casa para negros”. É de uma simplicidade avassaladora e incontestável. Como já disse o também filosofo Ralph Emerson: “Suas atitudes falam tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz”.
Após a leitura de “Libertação Animal”, cheguei num ponto de mutação, onde uma atitude precisa ser tomada, de pronto. O que antes era uma mera e eventual experiência gastronômica, vivenciada em tom jocoso com os amigos, de uma hora pra outra e sem aviso, se tornou uma necessidade existencial imediata, sem necessidade ou tempo para despedidas. Não sentirei saudades da costela do Escondinho, local onde, ainda neste ano, comemorei meu aniversário com algumas dezenas de pessoas, do kassler da Urich ou do galeto do Adelos. Muito mais do que saudades, para sempre carregarei comigo a vergonha de não ter parado antes, pois a informação do que esses animais sofrem para que eu tenha uma refeição deliciosa, estava disponível há tempos e eu sabia disso, só me recusava a olhar, por pura covardia egoísta.
Sem qualquer outra escolha, me tornei vegetariano, de pronto. Não posso mais participar desta carnificina absurda e desnecessária. Simplesmente não posso mais. Atitudes berram e se fazem urgentes!!!
Como golpe de misericórdia em qualquer tênue duvida que ainda existisse em minha mente, após uma vida inteira de “cegueira ética condicionada”, decidi assistir ao documentário “Terráqueos” (“Earthlings”, disponível no Youtube), há meses, ou anos, baixado para o computador e cuidadosamente esquecido, também por pura covardia e medo de me confrontar com a verdade nua e crua. Assisti-lo não é tarefa fácil e futuras noites de pesadelos e insônia virão, pois agora, muito mais que letras no papel, as imagens dos horrores descritos por Peter Singer são vistas em situações reais, muitas obtidas com câmeras escondidas. Muito mais que um forte tapa na cara, um tiro de fuzil, que dilacerou meu peito e acabou de vez com qualquer duvida que porventura existisse. Virei vegetariano de forma definitiva! E desafio qualquer um, com um mínimo de valores morais e éticos para o tratamento com os animais, a assisti-lo e posteriormente voltar a se alimentar do cadáver torturado destas vitimas inocentes.
Mahatma Gandhi, que era vegetariano e foi morto a tiros aos 79 anos de idade, disse, há dezenas de anos: “Seja a mudança que você deseja para o mundo”. Desejo um mundo onde animais não sejam mal-tratados, torturados, seifados de suas necessidades básicas mais elementares e humilhados, mesmo no momento de suas mortes, simplesmente para agradar meu refinado paladar.
Há menos de um ano, no dia 7 de julho de 2012, por mais óbvio que possa parecer a qualquer pessoa que já tenha convivido com qualquer animal, mas desta vez com o aval da ciência moderna, o neurocientista Philip Low, juntamente com diversos outros cientistas divulgaram um manifesto (“The Cambridge Declaration of Consciouness”), onde, baseados em diversas pesquisas científicas, afirmam de modo inequívoco, que todos os mamíferos, aves e outras criaturas, incluindo polvos, têm consciência, o que quer dizer que esses animais sofrem e, portanto, ao contrario do que disseram os comandantes das tropas aliadas da Segunda Guerra Mundial, quando se defrontaram com os horrores que eram infligidos aos judeus nos campos de concentração, segundo o próprio neurocientista: "Não é mais possível dizer que não sabíamos”.
Finalizando, cito a ultima frase do documentário “Earthlings”:
- “Somos todos Terráqueos. Faça a conexão”.

- Documentário “Terráqueos” (http://www.youtube.com/watch?v=R06Imw4Zzy0)


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