Eis que surge
a primavera na Cidade Maravilhosa!!! Os dias estão lindos, com um calor ainda
agradável, o céu com “um azul celeste,
celestial”, pessoas passeiam pelas ruas com bandeira coloridas tremulando
ao vento suave, sorrisos por todos os lados e a música nos cercando. Embora
este seja um retrato fiel do que realmente está acontecendo, este quadro parece
muito mais agradável do que realmente é, pois estamos em época de eleições!!!
As “pessoas que passeiam pelas ruas com bandeira
coloridas tremulando ao vento suave”, não o fazem por puro deleite ou por
uma “causa”. São pessoas de renda muito baixa, que em troca de algumas moedas,
provavelmente menos do que você gastou hoje para almoçar, passam o dia inteiro
distribuindo folhetos coloridos com números e frases de efeito, que sequer
dizem alguma coisa, do tipo: “esse trabalha
por você”, “nesse você confia”, “esse faz”, “ele voltou”, “amor e trabalho”,
“pela saúde e educação”, “pelo cumprimento das leis” - me fazendo
imaginar se existe alguém que seja contra a saúde, a educação e a favor do
descumprimento das leis - ou ainda, com uma simples ordem “Vote em mim”. As imensas bandeiras coloridas com números, ao invés
de agradarem, só servem para incomodar os pedestres e atrapalhar a visão dos
motoristas.
Os “sorrisos por todos os lados” são de
cartazes espalhados por todos os muros, postes, calçadas, praças e até mesmo no
meio da rua que, mais uma vez, só servem para incomodar os pedestres e
atrapalhar a visão dos motoristas. Todos os sorrisos são amarelos e falsos,
semelhantes ao que o seu cunhado faz quando vai à sua casa beber sua cerveja e
te pedir dinheiro emprestado, dizendo que te paga na semana que vem. Mas esses sorrisos
dos cartazes, só aparecerão de novo, daqui a quatro anos, sem terem cumprido a
promessa e ainda pedindo sua confiança mais uma vez!!! Oxalá pegassem o
dinheiro e sumissem!!!
A “música nos cercando” é péssima e faz ter
saudades de qualquer uma das piores músicas feitas pelos piores compositores e
cantadas pelos piores interpretes de qualquer lugar do mundo, e ainda por cima,
de uma infantilidade absurda, uma espécie de “Teletubies” cantado por gralhas estridentes com o arranjo feito por
um acidente de trem.
Junte tudo
isso à volta pra casa, na hora do rush,
dentro de um ônibus superlotado, após o dia inteiro de trabalho duro e temos o
que a Convenção de Genebra define como “tortura
de inocentes”. E são exatamente os algozes desta tortura urbana moderna,
que querem que você vote neles, para eles poderem te representar, trabalhar pra
você e melhorar a sua vida.
Por isso não
voto há anos. Ou melhor dizendo, voto nulo, pois embora sejamos um país
democrático, a festa da democracia é de presença obrigatória, com castigos
severos para quem não participar sorrindo. Enquanto os candidatos continuarem
achando que campanha eleitoral é colocar mais carros na rua tocando músicas
horrorosas, piorando o já caótico trânsito, emitindo um monte de CO2 para
aumentar ainda mais as conseqüências das mudanças climáticas, gastando papel,
madeira e plástico para escrever um número embaixo de uma foto mal tirada, com
frases piegas, sujando a cidade, gerando um monte de lixo, atrapalhando a vida
das pessoas e ainda explorando miseráveis, continuarei a votar nulo.
Talvez esse
modelo de democracia funcionasse na Grécia antiga, numa sociedade com poucas pessoas,
numa época onde as mulheres eram consideradas, e se consideravam, inferiores
aos homens e os recém nascidos com qualquer deformidade, ou simplesmente por
serem pequenos, eram arremessados de penhascos pelas autoridades. Não estou
aqui sugerindo o retorno à ditadura ou mesmo propondo qualquer alternativa, mas
não tenho como acreditar que passados mais de 2.000 anos, não consigamos montar
um novo modelo, mais elegante e eficiente, do que essa dependência estrita
desta corja de políticos incompetentes e corruptos, só interessada em ganhar
mais poder para se manter no poder por mais tempo.
E tem mais,
agimos como se somente com a ajuda iluminada dos políticos é que conseguiremos
sair ilesos da “Era das Trevas”!!! Ora, não é bem assim, vivemos numa sociedade
que, embora longe de ser uma Shangrilá
utópica, tem seus defeitos, mas também tem suas estruturas legais e
governamentais sólidas e bem instituídas. Acredito que não precisamos tanto
assim de tantos políticos por tanto tempo. A bem da verdade, acredito que nem precisamos
deles. Qual uma grande piscina no quintal, nos custam muito caro e nos servem
para muito pouco.
Outro dia vi na
internet uma foto de uma pessoa protestando com um cartaz que dizia “Sociedade que vota em corrupto, não é
vitima, é cúmplice”. Eu tiraria as palavras “em corrupto”. Na
minha visão, votar é compactuar com esse modelo pseudo‑democrático dependente
de políticos, obviamente, perpetuado pelos próprios políticos, de que as
pessoas precisam de políticos para representá-las. Não precisamos!!! Não
mais!!! Assim como não precisamos jogar recém nascidos de penhascos ou queimar pessoas
vivas em praça pública para dar o exemplo.
E pouco me
importa que “só eu” voto nulo e que isso não vai mudar nada, assim como
pouco me importa que o trânsito, como um todo, não vai melhor porque “só eu”
esperei o sinal fechar para atravessar na faixa de pedestre ou porque “só eu”
não bebi antes de dirigir ou porque “só eu” não peguei só uma sacolinha
plástica no mercado. Mesmo sendo “só eu”, vou continuar a fazer as coisas certas.
Se todos os “só eu” fizerem o mesmo, talvez possamos evoluir para uma sociedade
mais justa e realmente democrática, sem a necessidade de políticos “me representando” ou “trabalhando por mim”.
Enquanto agirmos
como crianças mimadas em uma loja de brinquedos caros, continuaremos a ser
tratados como crianças mimadas em uma loja de brinquedos caros, e nos
contentaremos com musiquinhas infantis, com sorrisos falsos, com bandeirinhas coloridas
e papeizinhos com números desenhados. E nosso herói continuará a ser o palhaço.
E ficaremos felizes com a noticia de que “Pior não ficou”!!!
Cada vez mais
tenho convicção de ter acertado no nome deste “espaço virtual”, que mais do que
uma expressão “Caetanesca”, nos define de forma muito mais precisa e real do
que gostaríamos. Nos vemos como uma sociedade democrática, mas na realidade, SOMOS
UNS BOSSAIS!!!
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