sábado, 29 de setembro de 2012

Sobre Primavera, Eleições e Voto Nulo


Eis que surge a primavera na Cidade Maravilhosa!!! Os dias estão lindos, com um calor ainda agradável, o céu com “um azul celeste, celestial”, pessoas passeiam pelas ruas com bandeira coloridas tremulando ao vento suave, sorrisos por todos os lados e a música nos cercando. Embora este seja um retrato fiel do que realmente está acontecendo, este quadro parece muito mais agradável do que realmente é, pois estamos em época de eleições!!!
As “pessoas que passeiam pelas ruas com bandeira coloridas tremulando ao vento suave”, não o fazem por puro deleite ou por uma “causa”. São pessoas de renda muito baixa, que em troca de algumas moedas, provavelmente menos do que você gastou hoje para almoçar, passam o dia inteiro distribuindo folhetos coloridos com números e frases de efeito, que sequer dizem alguma coisa, do tipo: “esse trabalha por você”, “nesse você confia”, “esse faz”, “ele voltou”, “amor e trabalho”, “pela saúde e educação”, “pelo cumprimento das leis” - me fazendo imaginar se existe alguém que seja contra a saúde, a educação e a favor do descumprimento das leis - ou ainda, com uma simples ordem “Vote em mim”. As imensas bandeiras coloridas com números, ao invés de agradarem, só servem para incomodar os pedestres e atrapalhar a visão dos motoristas.
Os “sorrisos por todos os lados” são de cartazes espalhados por todos os muros, postes, calçadas, praças e até mesmo no meio da rua que, mais uma vez, só servem para incomodar os pedestres e atrapalhar a visão dos motoristas. Todos os sorrisos são amarelos e falsos, semelhantes ao que o seu cunhado faz quando vai à sua casa beber sua cerveja e te pedir dinheiro emprestado, dizendo que te paga na semana que vem. Mas esses sorrisos dos cartazes, só aparecerão de novo, daqui a quatro anos, sem terem cumprido a promessa e ainda pedindo sua confiança mais uma vez!!! Oxalá pegassem o dinheiro e sumissem!!!
A “música nos cercando” é péssima e faz ter saudades de qualquer uma das piores músicas feitas pelos piores compositores e cantadas pelos piores interpretes de qualquer lugar do mundo, e ainda por cima, de uma infantilidade absurda, uma espécie de “Teletubies” cantado por gralhas estridentes com o arranjo feito por um acidente de trem.
Junte tudo isso à volta pra casa, na hora do rush, dentro de um ônibus superlotado, após o dia inteiro de trabalho duro e temos o que a Convenção de Genebra define como “tortura de inocentes”. E são exatamente os algozes desta tortura urbana moderna, que querem que você vote neles, para eles poderem te representar, trabalhar pra você e melhorar a sua vida.
Por isso não voto há anos. Ou melhor dizendo, voto nulo, pois embora sejamos um país democrático, a festa da democracia é de presença obrigatória, com castigos severos para quem não participar sorrindo. Enquanto os candidatos continuarem achando que campanha eleitoral é colocar mais carros na rua tocando músicas horrorosas, piorando o já caótico trânsito, emitindo um monte de CO2 para aumentar ainda mais as conseqüências das mudanças climáticas, gastando papel, madeira e plástico para escrever um número embaixo de uma foto mal tirada, com frases piegas, sujando a cidade, gerando um monte de lixo, atrapalhando a vida das pessoas e ainda explorando miseráveis, continuarei a votar nulo.
Talvez esse modelo de democracia funcionasse na Grécia antiga, numa sociedade com poucas pessoas, numa época onde as mulheres eram consideradas, e se consideravam, inferiores aos homens e os recém nascidos com qualquer deformidade, ou simplesmente por serem pequenos, eram arremessados de penhascos pelas autoridades. Não estou aqui sugerindo o retorno à ditadura ou mesmo propondo qualquer alternativa, mas não tenho como acreditar que passados mais de 2.000 anos, não consigamos montar um novo modelo, mais elegante e eficiente, do que essa dependência estrita desta corja de políticos incompetentes e corruptos, só interessada em ganhar mais poder para se manter no poder por mais tempo.
E tem mais, agimos como se somente com a ajuda iluminada dos políticos é que conseguiremos sair ilesos da “Era das Trevas”!!! Ora, não é bem assim, vivemos numa sociedade que, embora longe de ser uma Shangrilá utópica, tem seus defeitos, mas também tem suas estruturas legais e governamentais sólidas e bem instituídas. Acredito que não precisamos tanto assim de tantos políticos por tanto tempo. A bem da verdade, acredito que nem precisamos deles. Qual uma grande piscina no quintal, nos custam muito caro e nos servem para muito pouco.
Outro dia vi na internet uma foto de uma pessoa protestando com um cartaz que dizia “Sociedade que vota em corrupto, não é vitima, é cúmplice”. Eu tiraria as palavras “em corrupto”. Na minha visão, votar é compactuar com esse modelo pseudo‑democrático dependente de políticos, obviamente, perpetuado pelos próprios políticos, de que as pessoas precisam de políticos para representá-las. Não precisamos!!! Não mais!!! Assim como não precisamos jogar recém nascidos de penhascos ou queimar pessoas vivas em praça pública para dar o exemplo.
E pouco me importa que “só eu” voto nulo e que isso não vai mudar nada, assim como pouco me importa que o trânsito, como um todo, não vai melhor porque “só eu” esperei o sinal fechar para atravessar na faixa de pedestre ou porque “só eu” não bebi antes de dirigir ou porque “só eu” não peguei só uma sacolinha plástica no mercado. Mesmo sendo “só eu”, vou continuar a fazer as coisas certas. Se todos os “só eu” fizerem o mesmo, talvez possamos evoluir para uma sociedade mais justa e realmente democrática, sem a necessidade de políticos “me representando” ou “trabalhando por mim”.
Enquanto agirmos como crianças mimadas em uma loja de brinquedos caros, continuaremos a ser tratados como crianças mimadas em uma loja de brinquedos caros, e nos contentaremos com musiquinhas infantis, com sorrisos falsos, com bandeirinhas coloridas e papeizinhos com números desenhados. E nosso herói continuará a ser o palhaço. E ficaremos felizes com a noticia de que “Pior não ficou”!!!
Cada vez mais tenho convicção de ter acertado no nome deste “espaço virtual”, que mais do que uma expressão “Caetanesca”, nos define de forma muito mais precisa e real do que gostaríamos. Nos vemos como uma sociedade democrática, mas na realidade, SOMOS UNS BOSSAIS!!!

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