Há pouco menos de um mês, indignado por mais uma cobrança absurda perpetrada pela prefeitura de Niterói escrevi em meu blog (SomosUnsBoSSais) o texto “Charitas Nunca Mais”, que, de maneira provocativa, terminava da seguinte forma: “Pelo menos tal evento me fez recordar de uma antiga canção do Skank: “Indignação indigna. Indigna inação. A nossa indignação é como uma mosca sem asas, não ultrapassa as janelas de nossas casas”. Embora seja um pleno defensor do estado democrático de direito, como diz o escritor Miguel Torga: “Nos falta o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados””.
Não querendo extrapolar a importância do texto acima, os atuais protestos que estão acontecendo de forma espontânea e natural em diversas cidades por todo o Brasil e mesmo no exterior, demonstram claramente que para tudo há um limite e que, neste caso, mesmo que com grande atraso, o limite foi atingido, senão ultrapassado. Os tão citados “vinte centavos” aliados à resposta truculenta da Polícia foram a gota d’água, o estopim no pavio curto. “Liberdade ainda que tardia”.
Não tenho qualquer partido político, há anos voto nulo, não assisto televisão, não leio jornais e revistas, raramente ando de ônibus ou passo mais do que meia hora preso em engarrafamentos e não fui à Passeata dos 100.000 no dia 17 de junho. Mas irei à do dia 20 de junho e em quantas outras forem necessárias.
Diametralmente oposto à declaração do Jabor, tenho convicção de que não preciso ser negro para ser contra a escravidão, não preciso ser mulher para ser contra o estupro, não preciso ser judeu para ser contra o nazismo, não preciso ser homossexual para ser contra a “Cura Gay” e não preciso ser um poddle para ser contra os maus-tratos a animais. Existe até uma palavra na língua portuguesa para isso, aparentemente desconhecida pelo Jabor: alteridade – a capacidade de se colocar no lugar do outro.
Desta forma, independentemente da motivação, apoio veementemente qualquer tentativa de melhoria justa e equânime para todos. Obviamente, como a grande maioria da população, não sou favorável a atos de vandalismo e depredação de patrimônio público ou privado, mas não negarei que tive uma boa sensação ao ver a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro em chamas.
A mídia classificou o ato como “absurdo”, pois se trata de depredar a “Casa do Povo”! Talvez isso tenha sido verdade algum dia, mas não hoje. Não mais! Hoje o referido patrimônio histórico serve mais como a casa dos que vilipendiam, dos que se locupletam, dos que desavergonhadamente exploram o povo. Como querer civilidade e educação de pessoas que durante anos, tem seus direitos mais elementares diariamente negados? Nas senzalas e nos pelourinhos todos são tratados às chibatadas como escravos fugidios, mas quando se chega à Casa Grande exigem que todos se comportem como lordes ingleses?! Como se “desses 20 anos nenhum foi feito pra mim e agora você quer que eu fique assim igual a você? É mesmo, como vou crescer, se nada cresce por aqui” (“Mais do mesmo” - Legião Urbana).
Não pretendo de forma nenhuma justificar tais atos, mas o muro de Berlin não foi derrubado pelo povo? O mesmo não aconteceu com a estatua de Lênin ou mesmo durante a Tomada da Bastilha? E porque não falar da destruição de diversos outros patrimônios históricos, executadas exatamente pelos notáveis que habitavam, e ainda habitam, a “Casa do Povo”, como a demolição do Palácio Monroe, do Pavilhão Mourisco, do Morro do Castelo e, junto com ele, diversas construções de grande importância histórica, do Mercado Municipal da Praça XV, que foi demolido para construção do Elevado da Perimetral, que agora também está sendo demolido, ou mesmo dos diversos prédios que já foram ao chão por total omissão do Estado. Ou da tentativa de demolição do Estádio Célio de Barros e do Parque Aquático Júlio Delamare, ambos considerados patrimônio histórico desde 2002, ou ainda, do Museu do Índio, para construção de um estacionamento, que até agora não ocorreu devido às fortes manifestações populares, somente para ficarmos com exemplos no Rio de Janeiro! Exemplo não menos importante, a tentativa de demolição do Parque Gezi, na longínqua Turquia, para construção de um shopping, fato que também originou um grande levante popular!
E não me digam que os atos de poucos vândalos acabam por legitimar e justificar uma atitude truculenta da Polícia contra os outros milhares de cidadãos pacíficos. Não legitimam e não justificam não! Assim como um assaltante num ônibus não justifica que os passageiros sejam baleados. Assim como um carro repleto de traficantes não justifica que um helicóptero efetue centenas de disparos a esmo em uma região repleta de moradores de baixa renda - o mesmo não aconteceria em Ipanema. Os vândalos e depredadores devem ser reprimidos e penalizados na exata proporção de sua culpabilidade, de modo que a pena não ultrapasse a pessoa do criminoso, como determina nossa Constituição.
E o que tudo isso tem a ver com direitos dos animais e veganismo?
Mais uma vez: alteridade!
Esse levante popular gigantesco, espontâneo e legitimo ocorreu, pois o povo não suporta mais ser tratado como gado no curral! Não suporta mais viver espremido nos ônibus, como galinhas de granja! Não suporta mais ser chicoteado no metrô lotado, como são os cavalos de carga! As mães não suportam mais perder seus filhos para o tráfico de drogas ou por falta de atendimento no SUS, como sofrem as vacas leiteiras que são privadas de seus bezerros logo após o parto! Os que conseguem sobreviver não suportam mais a inércia forçada e a falta de alimentação adequada, como se faz com bezerros mantidos imóveis para virarem vitelos! O cidadão comum não suporta mais ser obrigado a engolir o que não quer, como se faz com patos, para que tenham seus fígados inchados e produzam bons patês! Não suportamos mais sentir frio para que os políticos sejam aquecidos, como fazemos ao tirar a lã das ovelhas! Não suportamos mais passar fome para alimentar ladrões, como fazemos com as abelhas ao roubarmos seu mel. Não suportamos mais sermos caçados, mortos ou abandonados à própria sorte nas periferias, como o foram os cachorros Santa Cruz do Arari, no Pará. Enfim, de maneira bastante especista, não suportamos que o tratamento dado aos animais, nos seja oferecido pelo Estado, afinal, somos seres humanos e justamente bradamos por melhores condições de vida!
Contudo, passados os protestos e reconstruído o Brasil, não nos esqueçamos desta palavra: alteridade. Pois, ao contrario de nós, os animais não conseguem organizar protestos e sem o nosso auxilio não existirá “A Revolução dos Bichos” (George Orwell). Sem o nosso auxilio não chegaremos às “Jaulas Vazias” (Tom Regan). Sem o nosso auxilio jamais veremos a completa “Libertação Animal” (Peter Singer). Pois, sob a ótica dos animais que diariamente exploramos, nós somos o Cabral, o Paes, o Hadad, o Kassab. Somos a Dilma e seriamos veementemente vaiados caso tivéssemos a coragem de ir a qualquer pasto, granja ou matadouro. Somos o Feliciano, ao nos utilizarmos de motivos pretensamente médicos para justificar as atrocidades que cometemos. Somos a grande mídia, que utiliza meias verdades para tentar justificar uma mentira confortável. Somos o Arnaldo Jabor, ao tentar desqualificar e ridicularizar os que já fizeram à opção ética pela igual consideração de interesses. Somos a truculência do Batalhão de Choque. Enfim, somos os torturadores da ditadura militar e, como eles, não nos arrependemos de nossos atos, que são hipocritamente justificados pelo cumprimento de ordens, nesse caso, pretensamente oriundas da própria natureza, do próprio processo evolutivo da espécie humana.
Passada a tempestade, renascidos das cinzas, não nos esqueçamos:
- “Somos todos terráqueos. Faça a conexão”.
Feitas as devidas ressalvas sobre os direitos dos animais, voltemos aos protestos, pois “chegou à hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”! Ou como meu irmão postou nofacebook: “Chegou a hora dessa gente temperada com pimenta e vinagre, mostrar seu sabor”. De forma pacifica e bem humorada, com o sentimento brasileiro de que “Gentileza Gera Gentileza”, Vamos pra Rua!!!
Coloquemos UM MILHÃO NAS RUAS e mostremos a essa corja que evoluímos, criamos asas e vamos voar sem a necessidade deles!!!
Coloquemos UM MILHÃO NAS RUAS e mostremos a essa corja que, como determina o artigo 1º da Constituição Federal da República Federativa do Brasil: “Todo poder emana do povo”!!!
Coloquemos UM MILHÃO NAS RUAS e mostremos a essa corja que o Brasil somos nós, que eles não nos representam e que “um filho teu não foge à luta”!!!
No momento, é o que basta!!!
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