segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sobre o “20 de junho”, o “Senhor da Guerra” e Músicas

RJ. Sexta-feira, 21 de junho de 2013, o “dia seguinte”. Extenuado por ontem, volto às ruas, acompanhado por amigos, vou a um show gratuito na praia. A paz reina, crianças brincam, amigos batem papo, a música do Lenine embala a todos. Enfim, “a cerveja gelada na esquina, como se espantasse o mal”. Encerrando o show, Lenine aparece com uma bandeira do Brasil e canta: “Estranhos dias vivemos. Dias de eventos extremos. E de excessos em excesso. Mas se com tudo que vemos, os olhos viram do avesso. Outros eventos veremos. Outros extremos virão. Prepare seu coração. Que isso é só o começo. É só o começo

RJ. Quinta-feira, 20 de junho de 2013, o “dia que ainda não acabou”. Após o trabalho, vou às ruas para a passeata. Milhares, talvez milhões, vão junto. O clima é de paz. Pessoas cantam alegremente pelas ruas e escrevem cartazes bem humorados: “Saímos do facebook”, “Desculpe o transtorno, estamos mudando o País”, “Enfia os 20 centavos no SUS”, “Legalize Já” (com garrafas de vinagre ao fundo), “É uma vergonha, a passagem mais cara que a maconha”, “Colocaram Mentos na Geração Coca‑Cola”, “Odeio bala de borracha, joga um Halls”, “Seu gás de recalque bate no meu vinagre e volta”, “Queremos hospitais padrão FIFA”, “Ideais são à prova de bala”, “The jiripoca is going pew‑pew”.

A grande maioria é de jovens, mas também existem idosos, crianças, mulheres grávidas, pessoas com necessidades especiais, diversos grupos de minorias, enfim, toda a sociedade em sua imensa diversidade. A bandeira do Brasil, juntamente com a máscara do filme “V de Vingança”, é onipresente. Em pouco tempo o número de pessoas cresce de forma assustadora. Mais de um milhão!!! Ouve-se o grito “Eta, eta, eta, tem mais que o Bola Preta”. Inicia-se a passeata, que vai à prefeitura. Tudo transcorre na mais perfeita paz e harmonia.

Estou perto da prefeitura, no meio da multidão, que não mais avança, pois o limite das ruas foi atingido. As pessoas ficam paradas, cantando, entoando palavras de ordem e em paz. Algum tempo depois, ouve-se um barulho muito alto. Poucos minutos após, outros são ouvidos. O cenário muda. Inicia-se a guerra urbana.

As pessoas mais próximas à prefeitura correm assustadas. Os que estão mais atrás gritam “Calma!!! Não corre!!!”. As coisas se acalmam e surge o brado “RESISTIR!!! RESISTIR!!! RESISTIR!!!”. Mais bombas são atiradas!!! Tiros são disparados!!! Gases tóxicos são lançados!!! Tudo em quantidades nunca antes vistas!!! As luzes das ruas são apagadas!!! As câmeras de vigilância desligadas!!! Celulares e internet não funcionam!!! Helicópteros com holofotes fazem vôos rasantes!!!


Mas porque não correm”, pensa de seu gabinete o “Senhor da Guerra”. E ordena: “Mais bombas!!! Mais violência!!!

Mas porque não correm”, mais uma vez pensa o “Senhor da Guerra”. Quem são essas pessoas que mesmo debaixo de uma chuva de bombas, de agentes químicos, de tiros, com as luzes apagadas, ainda assim se ajoelham e oferecem flores aos policiais?! Que ainda assim gritam “Sem Violência” e que “Amanhã vai ser maior”?! O sentimento de derrota, vergonhosa derrota, toma conta do “Senhor da Guerra”.

Com calma, de forma ordeira e pacífica, a multidão inicia o retorno às suas casas. A mensagem já foi dada!!!

Mas o “Senhor da Guerra” não suporta o gosto da derrota: “Persigam todos!!! Não deixem que voltem para suas casas!!! Fechem as estações de metrô e as barcas!!! Parem os ônibus!!! Encurrale-os!!! Joguem mais bombas!!! Não importa onde!!! Joguem em bares, em escolas, na Faculdade Nacional de Direito, em Hospitais. Onde houver pessoas, joguem bombas!!! Mande o Caveirão!!!”

Nesse ponto, o “Senhor da Guerra” comete um erro primário a qualquer um que já tenha lido “A Arte da Guerra”. Jamais deixe seu inimigo seu escapatória, pois nesse caso, qual uma besta encurralada, ele irá lutar ferozmente!!!


Iniciam-se os atos de depredação e vandalismo!!! Certo ou errado, essa foi a forma que o povo encontrou de se manifestar, na língua que o próprio Estado os ensinou, a língua da violência!!! “Desde pequeno nós comemos lixo, comercial, industrial. Mas agora chegou nossa vez, vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.

O que aconteceu depois, nunca antes foi visto. Vândalos (guerrilheiros?) retiram os tapumes, que protegiam as vidraças, para se protegeram. Em pouco tempo, os tapumes viram escudos que avançam contra a Tropa de Choque que, mesmo por pouco tempo, é obrigada a recuar. Chega o “Caveirão”, o temido blindado, temido pelos mais temidos traficantes. Alguém grita “Barricada!!!”. As pessoas se organizam, pegam tudo o que vêem pela frente e levam para rua, pedras e paus são arremessados. Vândalos (guerrilheiros?) sobem no blindado que, mesmo por pouco tempo, é obrigado a recuar!!!

A vergonhosa e total derrota recai sobre “Senhor da Guerra”!!!! Ao fundo ouvem-se os gritos da multidão “Amanhã vai ser maior!!! Amanhã vai ser maior!!! Amanhã vai ser maior!!!”.

Mas como isso pôde acontecer”, pensa cabisbaixo, o “Senhor da Guerra”?!


Isolado em sua prepotência, ele ainda não percebeu que a “luta, ensina a lutar” e que seu “inimigo”, antes imaginário e agora real, é composto por um exército de pessoas com “as costas marcadas, as mãos calejadas e a esperteza que só tem quem “tá” cansado de apanhar”. Definitivamente, depois de hoje: “O Senhor da Guerra não gosta de criança”!!!

Fatos semelhantes aconteceram por todo o País. O Congresso Nacional e o Itamaraty foram invadidos. A prefeitura de SP foi invadida. A assembléia legislativa do RJ foi invadida. Outros símbolos do Estado foram atacados em diversas cidades. Governantes foram cercados por milhares de cidadãos cansados de só apanhar. Concretizaram-se as palavras do personagem “V”: “O povo não pode ter medo do governo. O governo é que tem que ter medo do povo

Fez-se a Revolução!!!

Nada será como antes. Amanhã ou depois de amanhã”.

O preço das passagens, estopim desta guerra urbana, baixou. A Presidenta fez um pronunciamento à nação. Reformas políticas, a muito esquecidas, estão, mesmo que somente à força, renascendo. A desmilitarização da Polícia volta a ser exigida. Outras pautas virão. Mas, isso não basta, o povo continua nas ruas. “Isso é só o começo”.

Que este dia jamais seja esquecido!!! O dia em que “crianças” saíram do facebook e, protegidos apenas por escudos de tapumes, colocaram os “robocops” do Batalhão de Choque para correr!!! O dia que em “crianças” saíram do facebook e, munidos apenas de paus e pedras, colocaram o “Caveirão” para correr!!! O dia em que “crianças” saíram do facebook e mudaram definitivamente o Brasil!!! Que este dia seja comemorado como nosso segundo dia da independência. Talvez seja o primeiro!!! Pois o brado foi, mesmo sob uma chuva de bombas, tiros e gases tóxicos, entoado em uníssono por toda uma sociedade cansada de ser mal tratada. Cansada de pagar muito e nada receber.

Que os “Senhores da Guerra” percebam que será preciso muito mais do que estalinhos barulhentos, sprays de tempero, fumacinhas que fazem chorar e carros pretos para calar a voz das ruas!!! “Que uma sociedade muda, não muda”!!! Que os “Senhores da Guerra” percebam que “o gigante acordou” e que agora, ou eles mudam, ou não mais dormirão!!! Como dizia o pai de uma amiga: “Posso morrer de qualquer coisa, menos de medo!!!”. Como dizia “ORappa”, que mesmo sem querer criou o hino desta manifestação (“Vem pra rua, porque a rua é a maior arquibancada do Brasil”): “Os cães farejam medo, logo não vão me encontrar

Todos esses fatos me fizeram recordar de um texto do Luis Fernando Veríssimo, “Barricada”:

"Um dia, irmão, comemoraremos nossa vitória com um banquete. ... Não temos placas na rua como heróis da Resistência, mas temos a consciência de que os bárbaros não passaram ...:

- Como, heróis? Como, não passaram? Meu querido, não te falaram?

- Os bárbaros ganharam!"

Não desta vez!!! Não mais!!!

Desta vez, os bárbaros não passaram e não mais passarão!!!

Desta vez, com orgulho entoaremos o “brado retumbante”:

- “O povo decidiu!!! Ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil!!!

VIVA O POVO BRASILEIRO!!!


 

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