Diz a canção
de Cartola: “Quero assistir ao sol
nascer; Ver as águas dos rios correr; Ouvir os pássaros cantar; Eu quero
nascer; Quero viver...; Deixe-me ir; Preciso andar”...
Poucos dias
atrás, no interior de São Paulo, um macaco-prego chamado Chico, que por 37 anos
viveu amarrado pelo pescoço a uma corrente, foi retirado da casa de sua “dona” pela Polícia Ambiental. Segundo a inconsolável
senhora, retiraram-lhe um pedaço, pois Chico era tratado como um filho, fato
confirmado pelos vizinhos.
Nesse caso de
“amor interrompido” entre Chico e sua
humilde e simpática algoz, ainda havia, como era de se esperar, uma alimentação
totalmente inadequada e, não menos importante, o isolamento total do convívio
com seus semelhantes, pois macacos são animais extremamente gregários, que vivem
em bandos com dezenas de indivíduos e tem uma vida social intensa.
Porém, criar
um filho completamente isolado, mal alimentado e acorrentado em um espaço
ínfimo por toda a vida, não chega a ser algo que uma mãe amorosa deva ser
orgulhar.
Assim, devido
aos torturantes anos em que Chico viveu isolado de seus semelhantes e acorrentado
em um estreito corredor, ele não poderá ser devolvido à floresta, seu ambiente
natural e foi encaminhado a um Santuário. Lá, embora ainda confinado em um
viveiro, que é bem maior que o local onde passou suas ultimas décadas, Chico recebe
alimentação adequada e desfruta do agradável contato com outros macacos‑prego, igualmente
incapazes de serem soltos, pois também foram vítimas de isolamentos, correntes
e jaulas, que lhes foram impostas pela tirania de nossos semelhantes.
Aparentemente as angustias do cativeiro rapidamente os conectou e Chico já está
socializando com sua nova, e desta vez real, família.
Contudo, mesmo
com esses cenários antagônicos, criou-se a contenda filosófico‑judicial, o que
fazer com o Chico?
Em minha
opinião, não há qualquer duvida ou celeuma. A resposta é óbvia e simples: se há
correntes, e no caso havia, gaiolas, grades, ou qualquer outra forma de
contenção forçada, e elas sempre existem, caso contrário, o citado convívio harmonioso
entre o algoz e sua vítima sequer existiria, que as correntes sejam quebradas!
Que as jaulas e os grilhões sejam todos destruídos!
Alguns argumentam
que Chico está perto do fim de sua amargurada e incompleta vida, portanto o
correto seria devolver-lhe à sua antiga e amorosa “dona” para que nesse pouco tempo que ainda lhe resta, ele possa
desfrutar de seu corredor estreito e de suas correntes! Sozinho! Mais uma vez
privado do convívio com seus semelhantes.
E se fosse
você? Escolheria passar seus últimos dias isolado e acorrentado ao lado de seu amistoso
algoz ou escolheria a liberdade e o convívio com seus semelhantes? Pois é,
igual consideração de interesses! “Eu
quero nascer; Quero viver...; Deixe-me ir; Preciso andar; Vou por ai a
procurar; Rir pra não chorar”. Embora Chico não possa se comunicar com
clareza conosco, tenho absoluta certeza de que este seria o seu cantar!
Enquanto de forma
antropocentrista sequer aventarmos que o cativeiro de animais silvestres pode,
de alguma forma, ser agradável e feliz para animais solitários, mal alimentados
e acorrentados, desde que estes recebam um carinho vez ou outra, não há de se
estranhar que membros do legislativo criem leis com penas brandas para crimes
contra a fauna. Não há de se estranhar que membros do executivo demorem
sobremaneira para atender a denuncias de cativeiro de animais silvestres, pois o
mesmo é considerado insignificante. Não há de se estranhar que delegados não
prendam traficantes de animais silvestres, e quando o fazem, que juízes os
soltem em poucos minutos, pois consideram ser este um crime de baixo poder
ofensivo. Não há de se estranhar que quando a soltura não é mais possível, sejam
emitidas decisões liminares para devolução dos animais aos seus antigos
cativeiros, mesmo que existam opções muito mais adequadas, como no caso em
tela.
Ou nos
libertamos dessas amarras culturais especistas que remontam à “Era das Trevas” e nos fazem ainda aceitar
a prisão perpetua e solitária de seres sencientes inocentes, pelo simples fato
deles não pertencerem à nossa espécie, ou esse cenário medieval e absurdo no
qual vergonhosamente nos encontramos perdurará por mais alguns séculos.
“Liberdade, ainda que tardia”! Mesmo que
por pouco tempo! Mesmo que por um instante apenas! Mesmo que parcial! Sem
correntes! Sem grilhões! Sem isolamento! Liberdade! Sempre liberdade! Custe o
que custar!
Alterações
culturais e legais para efetivamente se impedir que qualquer animal silvestre
seja aprisionado, de qualquer maneira, em qualquer lugar, devem ser rápida e veementemente
buscadas por todos nós, pois essa é uma guerra de todos nós. Somos todos
vítimas e todos culpados. “Pra que o mal triunfe,
basta que o homem bom não faça nada” (Edmund Burke).
Mas, ao
contrario do que foi dito, Chico ainda não morreu, ainda não é uma carcaça e,
portanto, merece uma vida digna, mesmo estando “com os dias contados”, quem de nós não está? Sua tardia liberdade também
não é um “troféu indigno”. Cada pequena
vitória, cada vida inocente e cativa à qual se restitui a liberdade e ao
convívio com seus semelhantes, deve ser celebrada! Menos um inocente atrás das
grades! Cada soltura de cada animal silvestre aprisionado deve ser celebrada! Cada
corrente quebrada deve ser celebrada! Cada gaiola ou jaula destruída deve ser
celebrada! Quem sabe assim chegaremos um dia às tão sonhadas “Jaulas Vazias” de Tom Regan e à total e
irrestrita “Libertação Animal” de
Peter Singer. Somente assim deixaremos de ser especistas e nossa vitória será completa.
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Infelizmente, por meio de uma liminar, a justiça determinou que Chico fosse devolvido para sua antiga (e tão recente) vida de escravidão. Morrerá em breve, acorrentado, mal alimentado e sem nunca ter conhecido o gosto da liberdade.
ResponderExcluirLamento profundamente!
Temos que entender que quando essa senhora acolheu o animal, estávamos em outro mundo. Outro arcabouço legal, outra mentalidade. Os tutores do animalzinho deram o melhor de si, não faz sentido condená-los ou taxá-los de "algoz!" ou algo do gênero. Trata-se de uma família humilde, provavelmente desinstruída que embora não tenha dado um tratamento de excelência, conferiram ao animal uma acolhida no mínimo razoável. Ademais,a longevidade do Chico ou Carla, comprova o esmero de seus tutores.
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