“Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa
menino que tem medo de careta”. Muitos adultos de hoje foram colocados para
dormir ouvindo essa cantiga de ninar, que pelo visto se enraizou em muitas
mentes, pois ainda hoje muitos acreditam nela. Contudo, o “Boi da cara preta” foi substituído por outro bicho-papão ainda mais
malvado: o câncer, a diabetes, a hipertensão e a epilepsia. E pelo visto a cura
de todos esses males só pode ser obtida pela tortura de beagles fofinhos, coelhos peludinhos ou mesmo ratinhos branquinhos.
Aparentemente
a libertação dos beagles aprisionados
no Instituto Royal desencadeou um medo
infantil na cabeça de adultos inteligentes, fazendo-os relembrar e acreditar em
historinhas para ninar crianças.
Pelo que vem
sendo divulgado pela mídia e inacreditavelmente aceito por diversos adultos
inteligentes, muitos deles militantes e defensores de diversas outras causas
nobres, a libertação de 178 beagles
do Instituto Royal teria interrompido
uma década de estudos promissores para a cura do câncer e de diversos outros
males que assolam a humanidade, que em breve seriam revelados e pílulas mágicas
e salvadoras, com sabor de chocolate e sem calorias, seriam distribuídas de
graça para todos os seres humanos. Não fossem os bobos e feios vândalos
malvados sem coração que os libertaram, em pouco tempo estaríamos todos vivendo
felizes e saudáveis em Passargada.
Interessante
notar que esses 178 beagles, que eram
a chave para a cura de grande parte das moléstias que afligem a humanidade e
que nos conduziriam ao “Paraíso” na Terra, estavam aprisionados em um prédio sem
qualquer vigilância noturna, seja de veterinários, pois alguns eram
hipertensos, diabéticos ou mesmo epiléticos, ou de seguranças fortemente
armados para protegê-los de qualquer eventualidade, como o ataque desses
ativistas bobos e feios.
“Boi, boi, boi, boi da cara preta, ...”
Também é
interessante notar que nos EUA, somente em experimentação científica, milhões
de animais são mortos todos os anos. Se nossos 178 beagles poderiam curar o câncer, a diabetes, a hipertensão e a
epilepsia, lá então seria uma espécie de Shangrilá
da vida saudável e praticamente não existiriam doenças. Infelizmente, na vida
real, ao contrário do que se poderia esperar face ao número de animais mortos
em experiências científicas, mais de um milhão de americanos morrem todos os
anos, vitimas de doenças crônicas evitáveis - os já citados: câncer, diabetes,
hipertensão e doenças cardíacas. E toda essa epidemia de obesidade e diabetes
está diretamente associada ao consumo, desnecessário e exagerado, de outros
bilhões de animais que são anualmente torturados e mortos para servir de
alimento às milhares de pessoas que serão acometidas por essas doenças e morrerão
no ano que vem. Esta pode ser a primeira geração de americanos, na qual os
filhos morrerão antes de seus pais.
Pelo visto, as
pílulas coloridas não têm surtido muito efeito por lá. Mas nossos 178 beagles eram muito melhores.
“Boi, boi, boi, boi da cara preta, ...”
Quando
surgiram as primeiras suspeitas sobre os maus-tratos que pretensamente aconteciam
no interior do Instituto Royal, que
no ano passado recebeu mais de R$5.000.000,00 de verbas públicas, ao invés de
esclarecerem aos bárbaros cidadãos pagadores de impostos defensores dos animais,
que os 178 beagles não sofriam maus‑tratos
– como se uma vida inteira preso em uma jaula azulejada, repletas de fezes e
urina, sendo utilizado como cobaia de “sabesseláoque” fosse a definição de bem
estar animal - e que eles eram a chave para a cura do câncer, da diabetes, da hipertensão
e da epilepsia, fato que facilmente acabaria com o impasse e transformaria o
referido Instituto em local de devoção e respeito, fez-se o silêncio, que só
foi maculado pelo choro de alguns beagles
que lá eram cativos, sem qualquer pessoa para lhes assistir, fato que acabou
motivando a invasão e libertação dos 178 beagles
e de alguns coelhos.
Obviamente
leis foram descumpridas, pois se invadiu propriedade privada para de lá se
retirar “bens” que pertenciam ao Instituto
Royal, que segundo consta, trabalhava dentro da legalidade e seguia todas
as normas existentes sobre a experimentação animal. Mas esse é exatamente o
cerne da questão, a experimentação animal e suas normas! Mesmo sendo um pleno
defensor do Estado Democrático de Direito, entendo que em certos momentos
históricos de uma sociedade, a lei vigente não é mais suficiente e tem que ser
quebrada, para que o próprio Estado Democrático de Direito evolua, como no caso
em testilha. Já tivemos leis que permitiam a escravidão, a tortura e outras
práticas hoje consideradas absurdas. Na Alemanha Nazista, era crime punível com
a morte, prestar qualquer tipo de auxilio a qualquer judeu, mesmo que fosse uma
criança doente ou gravemente ferida.
O comunicado
oficial do Instituto Royal prega que
se você um dia já tomou uma aspirina, um remédio para pressão ou um anti-gripal,
então você é um dos milhões de beneficiários da pesquisa científica que vem
sendo desenvolvida no mundo com a morte de milhões de animais todos os anos. Os
senhores de escravo também diziam que se você já tivesse bebido um cafezinho com açúcar, então você era um dos milhões de beneficiários da escravidão, pois o
café e o açúcar não poderiam ser obtidos sem a utilização de trabalho escravo.
Falácias semelhantes eram ditas pelos Nazistas para justificar as atrocidades
que eram cometidas nos campos de concentração, eram ditas pela Inquisição para
justificar que mulheres acusadas de bruxaria fossem torturadas e queimadas
vivas em praça pública e ainda hoje tais falácias são proferidas por diversos
governantes, que sempre justificam que todas as atrocidades cometidas contra um
pequeno grupo, são para a sua proteção, para a proteção dos seus filhos e netos.
“Boi, boi, boi, boi da cara preta, ...”
Defender os
atos praticados no Instituto Royal é
defender a obscuridade e a má utilização de dinheiro público. Se atrocidades
têm que ser cometidas pelo bem público e ainda por cima, são pagas com dinheiro
público, por mais óbvio que possa parecer, tudo tem que ser de conhecimento
público. O que acontecia no interior do Instituto
Royal? Quais pesquisas estavam sendo efetivamente realizadas? Quais doenças
seriam efetivamente “curadas”? Por quais procedimentos os animais eram
submetidos? Quem eram os membros dos Conselhos de Ética que autorizaram tais
procedimentos? Quantos outros Institutos iguais a este existem no Brasil?
Quantos beagles estão aprisionados?
Quantos coelhos? Quantos ratos? Quantos animais são submetidos a essa prática
por ano? Via de regra, a obscuridade no fornecimento de informações é mais
condizente com atividades criminosas do que com atividades científicas para o
bem comum.
Defender os
testes em animais para o desenvolvimento de possíveis novas drogas, que serão
vendidas por valores extorsivos, é defender uma indústria que lucra bilhões de
dólares com as mazelas dos seres humanos e com a morte de animais inocentes. É o
mesmo que defender a indústria da carne, os agrotóxicos e os alimentos
transgênicos, sob a falsa argumentação de que eles estão auxiliando a diminuir
a fome no mundo. É defender o Nazismo e seus campos de concentração, pois
muitas drogas novas e procedimentos médicos foram lá desenvolvidos.
É defender
uma ciência ineficiente, refém de práticas antiquadas e ultrapassadas, onde os
fins justificam os meios, quaisquer que sejam eles, sem qualquer valoração
moral ou ética. É limitar o cientista, imponde-lhe restrições ao livre pensar e,
ai sim, atrasar o surgimento de novas drogas e novas formas de testar sua
eficácia. Aos cérebros mecanicistas e cartesianos, que acreditam que só existem
duas opções - ou se testa em animais ou não se realizam mais pesquisas – rogo:
libertem também suas mentes!
É defender a
manutenção de um estilo de vida doentio em detrimento de hábitos saudáveis,
pois a própria ciência moderna, cada vez mais tem reforçado a fundamental importância
destes hábitos saudáveis para a manutenção de uma vida plena, muito mais do que
o acreditar em drogas miraculosas.
É defender
uma sociedade doentia que, de forma absurda e desnecessária, tortura e mata
bilhões de animais todo o ano para se alimentar, que fica obesa e doente devido
a esse hábito e que depois mata milhões de animais para tentar se curar. E
milhões de seres humanos morrem todos os anos de doenças totalmente evitáveis, por
pura ineficiência das políticas públicas de prevenção, em detrimento dos ineficazes
procedimentos de cura, que geram lucros bilionários exatamente para as
indústrias citadas.
É defender
uma sociedade infantil e mimada, que mesmo sem comer os legumes e as verduras, ainda
acredita que todos seus excessos serão curados por uma fadinha mágica que,
antes que o fim chegue, trará uma pílula salvadora, com gosto de chocolate e sem
calorias, que nos redimirá de todos os “pecados” e todos viveremos felizes e
saudáveis para sempre.
Definitivamente,
as futuras gerações, caso elas venham a existir, terão motivos de sobra para
sentir absoluta vergonha dos nossos pretensos hábitos civilizados modernos e
evoluídos.
No mais,
comemoremos, pois motivos não faltam. Cada corrente quebrada, cada jaula
esvaziada, cada vida cativa à qual se restitui a liberdade deve ser
efusivamente comemorada e neste caso, 178 escravos, aprisionados pela nossa
própria ignorância, foram libertados.
Mas não nos
esqueçamos que ainda existem milhões, bilhões de animais inocentes aprisionados
e cotidianamente torturados por motivos ainda mais banais e que alguns deles
lhes serão servidos, mortos, já no café da manhã.
“A libertação animal é a libertação humana”
(Peter Singer)
Carlos Magno Abreu
É vegetariano, quase vegano,
analista ambiental do IBAMA,
aluno de doutorado da UFF e
autor do livro “O Brasil na Rota do Tráfico Internacional de
Animais Silvestres – A História da Operação Boitatá e a Serpente de Um
Milhão de Dólares”
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